
Tive um contato problemático com a obra de Langston Hughes (1902-1967). Conheci-o na aula de Literatura Norte-Americana junto a Ezra Pound, Williams, Moore e Wallace Stevens, poetas dos quais, em maior ou menor grau, eu já gostava bastante. Minha primeira reação, ao ler os versos de "I, too", foi indiferença: sua conotação, que acreditei política, não me interessava. Estava tudo muito óbvio e nítido naquele poema — sua crueza me parecia desleixo.
No entanto, a menção feita pelo professor a uma Harlem Renaissance me fez prosseguir: busquei seus poemas e, a certa altura, encontrei "The Weary Blues", "The negro speaks of rivers", "Night funeral in Harlem", "Minstrel Man" e "Let America be America again" — súbito, Hughes me ensinava algumas coisas sobre ritmo. Porém, mais importante do que ler seus poemas, foi escutá-los na voz do próprio poeta: era o blues, o blues que eu gosto de ouvir nas vozes de Skip James, de Charlie Patton ou de Blind Willie Johnson. A mesma cadência, as mesmas síncopes. Tudo exposto na profunda leitura de "The negro speaks of rivers" (ouça aqui).
Sua oratória, seus temas e seus ritmos remetem de imediato a Walt Whitman:
Let America be America again.
Let it be the dream it used to be.
Let it be the pioneer on the plain
Seeking a home where he himself is free.
(America never was America to me.)
Let America be the dream the dreamers dreamed--
Let it be that great strong land of love
Where never kings connive nor tyrants scheme
That any man be crushed by one above.
(It never was America to me.)
Como se vê, não há obscuridade, não há fantasia ditatorial ou coisa que o valha. Hughes não parece possuir desprezo algum pela realidade — a arte pura, aos seus olhos, deve parecer uma frivolidade à qual ele jamais poderia se ater. Portanto, utilizar-se dos parâmetros críticos do alto modernismo europeu para analisar a sua obra é uma espécie de crime — e, se esses parâmetros não alcançam sequer todos os poetas europeus da época (cite-se, por ora, Dylan Thomas, Antonio Machado ou mesmo Maiakóvski), que dizer de uma obra composta num Harlem que ressurgia (ou surgia?) no contexto cultural norte-americano? Exigir obscuridade e elipse de um artista que trabalhava onde e quando Langston Hughes trabalhava é exigir o impossível e desprezar a historicidade que guia a poesia.
Daí que Hughes (e tantos outros poetas) desmonta clichês e métodos analíticos engessados — nos provoca a escutá-lo com a devida atenção dispensada às suas particularidades, sejam elas admiráveis (como as que já citei) ou questionáveis (por exemplo: talvez o panfletarismo tenha alcançado os seus versos, diminuindo-os).
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Se não me engano, não há nenhum volume de Langston Hughes traduzido e disponível no Brasil.
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No entanto, a menção feita pelo professor a uma Harlem Renaissance me fez prosseguir: busquei seus poemas e, a certa altura, encontrei "The Weary Blues", "The negro speaks of rivers", "Night funeral in Harlem", "Minstrel Man" e "Let America be America again" — súbito, Hughes me ensinava algumas coisas sobre ritmo. Porém, mais importante do que ler seus poemas, foi escutá-los na voz do próprio poeta: era o blues, o blues que eu gosto de ouvir nas vozes de Skip James, de Charlie Patton ou de Blind Willie Johnson. A mesma cadência, as mesmas síncopes. Tudo exposto na profunda leitura de "The negro speaks of rivers" (ouça aqui).
Sua oratória, seus temas e seus ritmos remetem de imediato a Walt Whitman:
Let America be America again.
Let it be the dream it used to be.
Let it be the pioneer on the plain
Seeking a home where he himself is free.
(America never was America to me.)
Let America be the dream the dreamers dreamed--
Let it be that great strong land of love
Where never kings connive nor tyrants scheme
That any man be crushed by one above.
(It never was America to me.)
Como se vê, não há obscuridade, não há fantasia ditatorial ou coisa que o valha. Hughes não parece possuir desprezo algum pela realidade — a arte pura, aos seus olhos, deve parecer uma frivolidade à qual ele jamais poderia se ater. Portanto, utilizar-se dos parâmetros críticos do alto modernismo europeu para analisar a sua obra é uma espécie de crime — e, se esses parâmetros não alcançam sequer todos os poetas europeus da época (cite-se, por ora, Dylan Thomas, Antonio Machado ou mesmo Maiakóvski), que dizer de uma obra composta num Harlem que ressurgia (ou surgia?) no contexto cultural norte-americano? Exigir obscuridade e elipse de um artista que trabalhava onde e quando Langston Hughes trabalhava é exigir o impossível e desprezar a historicidade que guia a poesia.
Daí que Hughes (e tantos outros poetas) desmonta clichês e métodos analíticos engessados — nos provoca a escutá-lo com a devida atenção dispensada às suas particularidades, sejam elas admiráveis (como as que já citei) ou questionáveis (por exemplo: talvez o panfletarismo tenha alcançado os seus versos, diminuindo-os).
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Se não me engano, não há nenhum volume de Langston Hughes traduzido e disponível no Brasil.
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Francisco José Tenreiro, poeta de São Tomé e Príncipe, escreveu um "Fragmento de blues" dedicado a Langston Hughes:
Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.
Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.
Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
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